a resposta pública para a assessoria da APCM

22 agosto 2007

Semanas após publicar o post que analisa a criação da Associação Anti-Pirataria de Cinema e Música (APCM), recebi um e-mail da assessoria de imprensa do órgão, assinado por Luciano Diegues.

Na mensagem, Diegues questionava que havia escrito sobre “fracas operações nacionais da MPA e IFPI” contrastando com toneladas de dados sobre apreensões de CDs e DVDs em bancas de camelôs ou shopping populares.

“Estes dados apenas exemplificam o total desconhecimento e desinformação do jornalista, quando o mesmo diz que as antecessoras da APCM possuíam uma atuação fraca”, argumenta.

Como Diegues preferiu copiar na mensagem jornalistas responsáveis por meu trabalho no IDG Now! e não no Chá Quente, o debate foi trazido para o âmbito público. A resposta na íntegra está abaixo.

*

Olá Luciano,
antes de tudo, me desculpe a demora. Ao limpar minha caixa de entrada, encontrei seu e-mail separado para uma resposta que, na ocasião, não se concretizou. Agora, porém, faço questão de responder.

Intrigou-me receber seu e-mail poucos dias após as estatísticas do Chá Quente apontarem uma grande movimentação de usuários pelo post sugerido, principalmente vindos do Google pela busca de “Antônio Borges”, nome do atual presidente da APCM.

É bem provável que não saiba, mas o Chá Quente se propõe a cobrir e analisar o mercado de música digital no Brasil em todas suas nuances, seja a abertura de serviços brasileiros ou as conseqüências (legais ou mercadológicas) que arquivos digitais estão acarretando no mercado nacional.

Vamos aos fatos: em um mercado onde 1,1 bilhão de canções foram baixadas ilegalmente em 2005, dado divulgado pela mesma entidade que formou o órgão que você assessora, as autoridades brasileiras anunciaram, no final do ano posterior, a prisão e conseqüentes processos judiciais contra 30 brasileiros.

Soube disto não por assessores da ABPD (inclusive, tenho bastante apreço pela Edna Calheiros): quando John Kennedy, presidente da IFPI, órgão internacional da qual faz parte a entidade que você assessora, esteve no Brasil para anunciar as primeiras repreensões nacionais, falei com ele por telefone, o que acarretou em uma entrevista no IDG Now!.

Talvez esta matéria você não tenha visto. Nos meses seguintes, entrei em contato seguidas vezes com a mesma assessoria da ABPD para entender como a história se desenrolaria: saber os nomes dos acusados, quanto os processos pediriam de indenização ou mesmo se os processos foram para frente ou não.

Talvez sua acusação de desinformação seja real, mas não por culpa minha: mesmo que eu tenha perguntando exaustivamente, foi a ABPD, órgão que criou a agência que você assessora, que não agiu de forma transparente para divulgar informações sobre os processos. A explicação? Sinceramente, não sei.

Como lhe disse, o Chá Quente cobre multimídia digital. Realmente, a apreensão de milhares de cópias de CDs e DVDs são alardeadas com orgulho por todas as organizações ligadas à manutenção de direitos autorais e fazem parte do processo que estes mesmos órgãos acreditam ser o correto – não vamos entrar neste mérito.

A questão é que a tal da repreensão online da pirataria, medida pela primeira vez em 2005, é praticamente nula e nisto mantenho minha postura.

Na reunião de lançamento da APCM, onde tive a oportunidade de falar com Borges, Paulo Rosa (você deve conhecê-lo, não?) admitiu que não haverá repreensão a usuários finais que baixam música no Brasil, apenas os “grandes uploaders” (as palavras são dele).

Isto não é interpretação, é fato.

Recebo religiosamente as informações com apreensões de CDs e DVDs em banquinhas e shoppings populares tanto de organizações de direitos autorais (como a APCM) como de associações de software (como a ABES). Este é um lado das ações.

Com 30 processos feitos quase na surdina em um ambiente de 1,1 bilhão de músicas (e crescendo), podemos considerar que as apreensões de rua compensem estes números?

Uma pequena distinção: sites que vendem filmes piratas gravados em CD que são entregues pelo Correio é pirataria física e não digital, ok?

Se um dia a APCM quiser falar sobre os processos no Brasil, para talvez esclarecer melhor o combate à pirataria digital, ou mesmo mudar sua estratégia de combate à pirataria digital, estou totalmente aberto para conversas e, se compensar, comentar o assunto no Chá Quente.

Este e-mail também é para esclarecer que, antes de se fazer pré-julgamentos e sair alardeando como é boa a empresa para qual se trabalha, é bom conhecer o assunto a fundo e considerá-lo bem longe desta postura corporativista antes de distribuir acusações de desinformação.

Por fim: o Chá Quente é um blog pessoal onde eu analiso e exponho meu ponto de vista sobre alguns assuntos ligados a tecnologia – música digital, inclusive. Por isto mesmo qualquer tipo de problema ou dúvida deve ser levado àquele e-mail logo abaixo da minha foto, para ser tratado diretamente comigo.

Como você se deu ao direito de comunicar meus chefes sobre sua reclamação (o que, francamente, me levou apenas a pedir que desconsiderassem a mensagem para que eu mesmo tratasse do assunto na esfera pessoal), me dou o direito de levar um assunto particular para uma esfera pública.

Esta resposta, assim como um resumo do seu e-mail original, já estão publicados no Chá Quente. Este é o link – https://felitti.wordpress.com.

Abraços,
Guilherme Felitti

11 Responses to “a resposta pública para a assessoria da APCM”


  1. Muito boa resposta, Gui.
    O IDG foi o antro de jornalistas mais competentes por onde passei e aprendi com vocês a responsabilidade que existe em passar informação. Mesmo quando faltam dados.
    Toooooooma Diegues.🙂

  2. Luciana Coen Says:

    Guilherme,
    Parabéns pela resposta, assertiva e educada. Você é um dos melhores jornalistas especialistas em internet que conheço. Me orgulho de trabalhar contigo.

  3. Manoel Netto Says:

    Olá Guilherme, tudo bem? Ótima a sua resposta e sua postura no assunto. Acredito que jornalistas não passem por isso seguidas vezes, diferente de blogueiros, que são constantemente questionados com relação a sua responsabilidade e credibilidade.

    Esse é um dos assuntos que serão tratados no BlogCamp em SP. Foi muito oportuno tomar conhecimento desse seu post.

    Um grande abraço


  4. Feliti
    Mereces o apoio total de todos nós, teus leitores fiéis, por teu trabalho liso – que fica cada vez maior e melhor. Parabéns.


  5. “Acredito que jornalistas não passem por isso seguidas vezes”. Infelizmente, o Manoel se engana aí.🙂

  6. Ostrock Says:

    Questão:

    Sendo o processo público por qual motivo até hoje não apareceu nenhum dos trinta requeridos neste caso?

  7. gfelitti Says:

    Cíntia, é difícil dizer se é coise de assessor ou da entidade. Guardaria o “Toma, Diegues”.

    Marmote, assino embaixo. Pela visibilidade (ou falta de da maioria dos blogueiros), a velha imprensa sofre barbaridades com isto.

    Ostrock, ótima pergunta. Voltando de férias eu descubro isto.

    Manoel e Lúcia,🙂.


  8. […] Setembro 4th, 2007 Sabe a história da APCM? […]


  9. […] constatação? Que, assim como a repreensão, a venda de música digital no Brasil não funciona. Posted by gfelitti Filed in mídia […]


  10. […] 26th, 2007 Cerca de dez dias após publicar a resposta pública à assessoria da APCM, o órgão me procurou. O que há para ser dito agora sobre o combate à pirataria, com dados das […]

  11. rafaela Says:

    Parabéns!!!!gostei muito das informações, da criação e desenvolvimento desse site!!!

    http://www.nextcriacaodesitesesistemas.com


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